Kast manda erguer “barreiras físicas” na fronteira e endurece política contra imigração ilegal no Chile

O presidente do Chile, José Antonio Kast, ordenou a construção de “barreiras físicas” na fronteira com a Bolívia como parte de um pacote de medidas para conter a imigração irregular no país. A decisão foi anunciada logo nos primeiros atos do novo governo, após sua posse no Palácio de La Moneda, em Santiago.

A iniciativa cumpre uma das principais promessas de campanha de Kast, que venceu as eleições defendendo uma política migratória mais rígida e um endurecimento nas ações de segurança pública. Durante a cerimônia em que assinou seus primeiros decretos presidenciais, o mandatário solicitou ao comandante do Exército chileno, Pedro Varela, que amplie o contingente de agentes na região fronteiriça e colabore diretamente com a instalação das estruturas de contenção.

Segundo o presidente, as barreiras têm como objetivo desencorajar a entrada irregular de estrangeiros, especialmente em áreas do norte chileno onde o fluxo migratório tem aumentado nos últimos anos.

“Solicito a sua colaboração ativa no aumento do número de funcionários e também o encarrego de colaborar com a construção de barreiras físicas para deter a entrada da imigração ilegal”, afirmou Kast durante o anúncio.

Pressão migratória no norte chileno

A fronteira entre Chile e Bolívia se tornou um dos principais pontos de entrada de migrantes que buscam estabelecer-se no território chileno ou utilizá-lo como rota para outros países da América do Sul. Dados oficiais indicam que cerca de 337 mil estrangeiros vivem atualmente no Chile sem documentação regular, número que tem alimentado o debate político interno sobre segurança e políticas migratórias.

Nos últimos anos, cidades do norte chileno registraram aumento no número de migrantes vindos principalmente da Venezuela, da Colômbia e de outros países da região. A situação provocou tensões sociais e pressionou autoridades locais a adotarem medidas mais rígidas de controle.

Primeiros decretos do novo governo

A decisão de erguer barreiras na fronteira foi anunciada no mesmo evento em que Kast assinou seis decretos iniciais de governo, três deles diretamente ligados ao combate à imigração irregular. As medidas incluem reforço militar em áreas sensíveis da fronteira e reorganização das políticas de controle migratório.

Kast afirmou que o Chile enfrenta uma situação de emergência em várias áreas e que seu governo adotará medidas rápidas para responder aos desafios do país.

“Para enfrentar as emergências em segurança, saúde, educação e emprego, o Chile precisa de um governo de emergência — e é isso que teremos”, declarou o presidente em seu primeiro discurso oficial.

Críticas ao governo anterior

Em seu pronunciamento, Kast também fez duras críticas à administração do ex-presidente Gabriel Boric, a quem acusou de entregar o país em condições piores do que o esperado. O novo presidente determinou que ministros realizem auditorias para avaliar a situação das contas públicas e das políticas herdadas do governo anterior.

“Estão nos entregando um país em piores condições do que poderíamos imaginar”, afirmou o novo mandatário, diante de milhares de apoiadores reunidos na capital chilena.

Discurso duro contra o crime

Além da imigração, Kast prometeu intensificar o combate ao crime organizado e à violência. Em seu discurso, afirmou que criminosos — sejam nacionais ou estrangeiros — serão perseguidos e levados à Justiça.

“Aos adversários do Chile, como os criminosos nacionais e estrangeiros, vamos perseguir, encontrar, julgar e condenar”
, declarou.

A retórica firme sobre segurança pública foi um dos pilares de sua campanha eleitoral e tem atraído apoio de setores da população preocupados com o aumento da criminalidade.

Mudança política no país

Católico praticante e pai de nove filhos, Kast representa uma vertente conservadora da política chilena pouco vista desde o retorno da democracia em 1990, após o fim da ditadura de Augusto Pinochet.

Analistas políticos avaliam que sua eleição reflete uma mudança no clima político do país, especialmente após o fracasso de duas tentativas de aprovar uma nova Constituição — processo iniciado após os protestos sociais que marcaram o Chile em 2019.

Para o cientista político Rodrigo Arellano, da Universidade do Desenvolvimento, Kast encarna “uma direita conservadora como não se via desde a redemocratização”, com forte discurso em favor da ordem, da segurança e de políticas migratórias mais rígidas.

Debate regional

A decisão de construir barreiras físicas na fronteira também pode repercutir em toda a América do Sul. Medidas semelhantes, como muros e cercas fronteiriças, têm sido adotadas em diferentes regiões do mundo para tentar controlar fluxos migratórios — frequentemente gerando debates sobre direitos humanos, diplomacia e cooperação regional.

Ainda não foram divulgados detalhes sobre o tamanho, formato ou custo das barreiras planejadas, nem o cronograma exato para o início das obras. O governo chileno, porém, indicou que a medida faz parte de uma estratégia mais ampla de controle territorial e de fortalecimento das fronteiras.

Enquanto apoiadores veem a decisão como necessária para restaurar a ordem e controlar a imigração irregular, críticos alertam que a construção de barreiras físicas pode agravar tensões diplomáticas e não resolver as causas profundas da migração na região.