Boulos critica governadores por ICMS e caminhoneiros prometem pressão no Congresso para manter piso do frete

Em reunião no Planalto, categoria descarta paralisação, mas anuncia ofensiva sobre parlamentares contra mudanças que possam enfraquecer direitos garantidos em medida provisória.

 

 

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSol-SP), afirmou nesta quarta-feira (25) que os caminhoneiros não podem continuar arcando com os impactos da alta do diesel e criticou a postura de governadores que, segundo ele, não avançaram na redução do ICMS sobre combustíveis. A declaração foi dada após reunião com representantes da categoria no Palácio do Planalto, em Brasília.

O encontro também contou com a presença do diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Guilherme Sampaio, e teve como foco principal as dificuldades enfrentadas pelos caminhoneiros autônomos, especialmente em relação ao preço do diesel e ao cumprimento do piso mínimo do frete rodoviário.

Apesar da insatisfação com o cenário, os representantes do setor decidiram não convocar paralisação neste momento. Em vez disso, anunciaram que vão concentrar esforços na articulação política junto ao Congresso Nacional para garantir a manutenção das regras previstas na medida provisória publicada em 19 de março, que reforça a fiscalização do piso mínimo do frete.

Durante a reunião, Boulos afirmou que o governo atendeu a uma reivindicação histórica da categoria, apresentada desde 2018, ao fortalecer os mecanismos de proteção ao frete mínimo. Segundo ele, os caminhoneiros não podem ser penalizados nem pela especulação de postos e distribuidoras, nem pela falta de ação dos estados em relação ao ICMS.

“Os caminhoneiros não podem pagar o preço da ganância e da irresponsabilidade, nem da omissão de governadores com o ICMS”, declarou o ministro, ao prometer intensificação da fiscalização sobre o setor de combustíveis.

A preocupação dos caminhoneiros agora se volta à tramitação da medida provisória no Congresso. Lideranças da categoria afirmam temer a atuação de grupos econômicos e lobistas para derrubar garantias consideradas essenciais à sobrevivência dos autônomos.

Representando os trabalhadores, Luciano Santos afirmou que o piso mínimo do frete é uma conquista que garante dignidade à categoria e ajuda a preservar vidas nas estradas. Segundo ele, a mobilização seguirá agora em Brasília, com cobrança direta aos deputados e senadores.

“A luta agora é com os parlamentares. Vamos ver de que lado estão: dos trabalhadores ou das grandes empresas”, afirmou.

A medida provisória em vigor estabelece mudanças importantes na fiscalização do frete. Pela nova regra, o controle deixa de acontecer apenas nas rodovias e passa a ocorrer já no momento da contratação do serviço. Com isso, operações abaixo da tabela mínima poderão ser impedidas antes mesmo de serem executadas.

Outro ponto central é a obrigatoriedade do Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT) para todos os fretes. Sem esse código, o transporte poderá ser barrado. A norma também integra o CIOT ao Manifesto Eletrônico de Documentos Fiscais (MDF-e), permitindo fiscalização em tempo real e ampliando o controle sobre as operações.

As punições para o descumprimento das regras também foram endurecidas. Empresas ou contratantes que desrespeitarem o piso mínimo poderão receber multas de R$ 10.500 por operação. Em casos mais graves, as sanções podem variar de R$ 1 milhão a R$ 10 milhões, além da suspensão ou cancelamento da autorização de funcionamento por até dois anos em situações de reincidência.

Segundo o diretor-geral da ANTT, Guilherme Sampaio, a nova regulamentação será aplicada com rigor. Ele afirmou que, além da fiscalização mais intensa, o documento necessário para a realização do transporte não será emitido quando os valores informados estiverem abaixo da tabela oficial.

As novas regras também atingem plataformas digitais e intermediadores que ofertarem fretes em desacordo com o piso mínimo, além de prever responsabilização de empresas e grupos econômicos em casos de fraude.

Com a decisão de não paralisar as atividades, os caminhoneiros tentam manter o abastecimento e, ao mesmo tempo, ampliar a pressão institucional sobre o Congresso para impedir retrocessos. O tema deve seguir no centro do debate político nos próximos dias, diante da disputa entre interesses do setor produtivo, transportadores autônomos e o impacto do preço dos combustíveis na economia.