Esquema sob investigação levanta suspeitas sobre conexões políticas, risco ao sistema financeiro e possível omissão de órgãos de controle; caso pressiona autoridades por apuração sem interferência partidária
O caso envolvendo o Banco Master ganhou novos contornos políticos e financeiros e passou a ser tratado como um dos episódios mais explosivos do sistema bancário brasileiro nos últimos anos. Em meio ao avanço das investigações, o escândalo deixou de ser visto apenas como a derrocada de uma instituição privada e passou a expor uma rede de relações que alcança figuras ligadas ao bolsonarismo, além de levantar questionamentos sobre falhas de supervisão e sobre o alcance real do rombo atribuído à operação.
No centro do caso está o banqueiro Daniel Vorcaro, apontado como peça-chave de um esquema que teria movimentado bilhões de reais por meio de estruturas financeiras complexas, triangulações suspeitas e operações que hoje são alvo de investigações. O episódio acendeu o alerta não apenas pelo prejuízo potencial aos investidores, mas também pelo impacto sistêmico que poderia recair sobre o mercado financeiro e o Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
Entre os nomes citados no entorno do caso está o empresário Fabiano Zettel, apontado como cunhado e operador financeiro de Vorcaro. Segundo as informações divulgadas, ele teria feito doações milionárias nas eleições de 2022, incluindo repasses à campanha do ex-presidente Jair Bolsonaro e ao então candidato ao governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas. As movimentações reforçaram, no debate político, a tese de que o escândalo extrapola a esfera econômica e alcança o núcleo de influência da direita bolsonarista.
Outro nome que aparece no contexto das apurações é o do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Conforme relatos mencionados no material que repercute o caso, o parlamentar teria utilizado uma aeronave ligada a Vorcaro durante agendas de campanha no segundo turno de 2022. Também são citadas mensagens apreendidas que indicariam contato entre os dois, elemento que deve ser analisado pelas autoridades dentro do conjunto de provas reunidas.
A lista de políticos mencionados ainda inclui o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro do governo Bolsonaro. De acordo com as informações já tornadas públicas, mensagens atribuídas a Vorcaro demonstrariam proximidade entre ambos. O senador também é citado por ter apresentado uma emenda à PEC da Autonomia Financeira do Banco Central prevendo elevar o limite de cobertura do FGC por CPF de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, medida que, se aprovada, poderia ampliar significativamente a exposição do fundo em um cenário de quebra bancária.
Pelas estimativas citadas no caso, cerca de 1,6 milhão de investidores teriam sido atraídos pela estratégia do Banco Master. A eventual liquidação da instituição pode obrigar o FGC a desembolsar mais de R$ 40 bilhões para ressarcir correntistas, no que seria o maior resgate da história do mecanismo de proteção. O temor é que mudanças legislativas ou flexibilizações regulatórias pudessem multiplicar ainda mais esse impacto.
No Rio de Janeiro, o escândalo também respingou sobre a gestão do governador Cláudio Castro (PL). O foco da controvérsia está em investimentos de quase R$ 1 bilhão do RioPrevidência no Banco Master, operação que, segundo as denúncias, teria sido feita mesmo diante de alertas emitidos pelo Tribunal de Contas do Estado. A Polícia Federal apura se houve irregularidades e se recursos destinados à previdência dos servidores foram expostos de forma indevida.
A Operação Anomalia, conduzida pela PF, acrescentou um componente ainda mais sensível ao caso ao prender Alessandro Carracena, ex-secretário de Esportes do governo fluminense e nome indicado ao cargo pelo senador Flávio Bolsonaro. As investigações mencionam suspeitas de ligação com o Comando Vermelho e a possibilidade de que estruturas financeiras ligadas ao Banco Master tenham sido usadas para movimentar capitais de origem suspeita.
No Distrito Federal, o ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) também foi citado no contexto do escândalo. As suspeitas envolvem, de um lado, a atuação do BRB na aquisição de títulos ligados ao Master e, de outro, um contrato firmado por seu escritório de advocacia com fundo relacionado à Reag Investimentos em período próximo ao avanço dessas operações. A sobreposição entre relações institucionais, interesses privados e movimentações financeiras passou a ser um dos eixos centrais da crise.
A dimensão política do caso também reacendeu o debate sobre a atuação do Banco Central durante a gestão de Roberto Campos Neto. Críticos apontam que a expansão acelerada do Banco Master ocorreu sob sua presidência, período em que os ativos da instituição saltaram de R$ 3,7 bilhões, em 2019, para mais de R$ 82 bilhões, em 2024. O crescimento teria sido sustentado por CDBs com rentabilidade muito acima do padrão do mercado, o que hoje é apontado como um dos sinais de alerta que deveriam ter motivado reação mais dura da autoridade monetária.
Já a gestão seguinte, sob comando de Gabriel Galípolo, passou a ser associada a uma postura mais rígida diante do caso. Segundo os relatos, foi a partir dessa mudança no Banco Central que avançaram medidas como a liquidação da instituição e o aprofundamento das apurações, incluindo diligências da Polícia Federal e afastamento de servidores mencionados no inquérito.
Com o avanço das investigações, o caso Banco Master se consolida como uma crise que mistura finanças, regulação, política e suspeitas criminais. Mais do que a responsabilização de uma instituição ou de seus dirigentes, o escândalo pressiona o Estado brasileiro a esclarecer quem permitiu a montagem da estrutura, quem se beneficiou dela e por que os sinais de risco não foram contidos antes que o problema alcançasse dimensão bilionária.



