Engenheira, urbanista e defensora dos direitos das mulheres, Carmen Portinho participou da luta pelo voto feminino e deixou obras que marcaram a arquitetura e a política habitacional do país
Muito antes de mulheres ocuparem com maior frequência universidades, cargos técnicos e espaços de decisão, Carmen Velasco Portinho já desafiava barreiras em algumas das áreas mais dominadas por homens no Brasil.
Nascida em Corumbá, atual Mato Grosso do Sul, em 26 de janeiro de 1903, Carmen tornou-se engenheira civil, urbanista e uma das principais defensoras da ampliação dos direitos das mulheres durante o século 20.
Sua trajetória reuniu duas frentes que marcariam sua vida: a luta pela participação feminina na sociedade e a busca por cidades capazes de oferecer melhores condições de moradia e qualidade de vida.
Em reconhecimento à sua contribuição, Carmen foi oficialmente declarada Patrona do Urbanismo no Brasil em dezembro de 2022, pela Lei nº 14.477.
Uma das primeiras engenheiras do Brasil
Carmen se formou em Engenharia Civil em 1925, pela Escola Politécnica da antiga Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Sua presença em um curso majoritariamente masculino já representava uma ruptura com os padrões sociais da época.
Depois da graduação, ingressou no quadro técnico da Diretoria de Obras e Viação da então Prefeitura do Distrito Federal, no Rio de Janeiro.
A carreira seria marcada por outras conquistas.
Em 1939, Carmen tornou-se a primeira mulher brasileira a receber o título de urbanista, consolidando-se como uma das principais pioneiras da área no país.
Luta pelo voto feminino
Paralelamente à carreira profissional, Carmen também participou ativamente da organização do movimento pelos direitos das mulheres.
Ao lado de nomes como Bertha Lutz, Jerônima Mesquita e Stella Guerra Durval, participou da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, entidade ligada ao movimento sufragista e dedicada à conquista da igualdade de direitos e maior autonomia para as mulheres.
Naquele período, uma das principais reivindicações era o direito de as mulheres participarem das eleições.
O voto feminino foi incorporado à legislação eleitoral brasileira em 1932, representando uma das maiores conquistas políticas daquele movimento.
Mas a atuação de Carmen não se limitava às urnas.
Ela também defendia o acesso das mulheres à educação, a valorização profissional, a proteção à maternidade e à infância e uma participação feminina cada vez maior na vida econômica e pública.
Urbanismo e reconstrução no pós-guerra
A carreira de Carmen ganhou uma dimensão internacional em 1945.
Com uma bolsa do Conselho Britânico, ela viajou para a Inglaterra para acompanhar trabalhos relacionados à reurbanização de cidades britânicas afetadas pela Segunda Guerra Mundial.
A experiência influenciaria diretamente suas propostas no Brasil.
Depois de retornar ao Rio de Janeiro, Carmen sugeriu à administração municipal a criação de uma estrutura dedicada especificamente à construção de moradias populares.
A proposta avançou e, em 1946, foi criado o Departamento de Habitação Popular da Secretaria de Viação e Obras Públicas da Prefeitura do Distrito Federal, órgão que passou a ser dirigido por ela.
Pedregulho se torna referência
Entre os projetos ligados à atuação de Carmen está o Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes, mais conhecido como Pedregulho, localizado em São Cristóvão, no Rio de Janeiro.
O projeto arquitetônico foi desenvolvido por Affonso Eduardo Reidy, companheiro de Carmen e um dos nomes importantes da arquitetura moderna brasileira.
O empreendimento buscava ir além da simples construção de apartamentos.
A proposta reunia habitação e equipamentos coletivos, pensando na rotina das famílias e na integração entre moradia, educação, lazer e serviços.
Essa concepção ajudou a transformar Pedregulho em uma das referências da arquitetura moderna e das políticas de habitação social brasileiras.
Participação no Museu de Arte Moderna
Carmen também esteve ligada a outros projetos importantes da arquitetura brasileira.
Sua trajetória profissional se conecta à construção do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio), outro projeto arquitetônico de Affonso Eduardo Reidy.
Além da engenharia e do urbanismo, Carmen manteve forte ligação com as artes e a cultura ao longo da vida.
Um legado que atravessou o século
Carmen Portinho nasceu em 1903 e morreu em 2001, aos 98 anos.
Ao longo de quase todo o século 20, acompanhou — e ajudou a impulsionar — profundas mudanças na participação das mulheres na sociedade brasileira.
Sua história combina engenharia, urbanismo, direitos femininos, habitação popular e políticas públicas.
Mais de duas décadas depois de sua morte, o reconhecimento oficial de sua importância ganhou força com a sanção da Lei nº 14.477, de 15 de dezembro de 2022, que declarou Carmen Velasco Portinho Patrona do Urbanismo no Brasil.
A homenagem consolida o nome de uma profissional que não apenas abriu caminhos para outras mulheres na engenharia e no urbanismo, mas também ajudou a introduzir no debate brasileiro uma visão de cidade voltada para a moradia, os serviços públicos e a qualidade de vida da população.

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