Declaração do Departamento de Estado reacende temor de classificação das facções como terroristas, amplia desgaste diplomático e coloca o combate ao crime organizado no centro da relação entre Brasília e Washington
A decisão do governo dos Estados Unidos de tratar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como ameaças de alcance regional abriu uma nova e sensível frente de desgaste entre Brasília e Washington. Em comunicado enviado à imprensa em 10 de março, o Departamento de Estado afirmou considerar as duas facções brasileiras ameaças significativas à segurança regional por seu envolvimento com narcotráfico, violência e crime transnacional, mas evitou antecipar se fará ou não uma designação formal de terrorismo.
A declaração veio depois de reportagens indicarem que o governo Donald Trump avalia enquadrar PCC e CV como organizações terroristas. A hipótese é vista com preocupação no Palácio do Planalto porque, na avaliação de integrantes do governo brasileiro, ela extrapola o campo da cooperação policial e pode abrir caminho para sanções, pressões diplomáticas mais duras e até argumentos políticos para ações unilaterais dos Estados Unidos na região. Esse receio ganhou força nos bastidores da diplomacia brasileira nos últimos dias.
No centro da reação brasileira está um argumento jurídico. Pela Lei nº 13.260, em vigor desde 2016, o terrorismo no Brasil é tipificado em circunstâncias específicas, ligadas a atos motivados por xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, com a finalidade de provocar terror social ou generalizado. Por isso, a posição sustentada por autoridades brasileiras é que PCC e CV, embora sejam organizações criminosas violentas e de grande alcance, não se enquadram tecnicamente na definição legal de terrorismo adotada pelo país.
Essa divergência não é nova, mas voltou a subir de tom. Em maio de 2025, representantes do governo americano já haviam pedido ao Brasil que classificasse PCC e CV como grupos terroristas. Na ocasião, o governo brasileiro rejeitou a proposta e afirmou que o ordenamento jurídico nacional não comportava esse enquadramento. Segundo a Reuters, autoridades dos EUA defenderam a medida como instrumento para ampliar sanções, cortar cadeias de financiamento e agir contra a presença dessas facções em território americano.
Diante da nova pressão, o Itamaraty se moveu para conter a escalada. Em 8 de março, o chanceler Mauro Vieira conversou com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, sobre cooperação no combate ao crime organizado. A interlocução ocorreu justamente no momento em que o governo Lula tentava evitar que o debate migrasse da esfera da segurança pública para a lógica da guerra ao terrorismo. No entendimento do Planalto, o Brasil precisa reforçar a disposição de cooperar contra facções transnacionais sem aceitar uma moldura jurídica e política que, na visão do governo, ameaça a soberania nacional.
O episódio se insere em um contexto diplomático mais amplo e mais delicado. Desde janeiro, Lula e Trump vinham tratando de um encontro em Washington. Em telefonema em 26 de janeiro, os dois concordaram em realizar uma reunião presencial, e em fevereiro Lula chegou a dizer que a visita poderia ocorrer no início de março. Nos últimos dias, porém, o encontro seguiu sem data pública confirmada. Segundo a CNN Brasil, a data de 16 de março foi cogitada pelo governo brasileiro, mas a agenda acabou sendo adiada e permaneceu sem nova previsão divulgada.
A sensibilidade do momento ficou ainda mais evidente com a controvérsia em torno de Darren Beattie, conselheiro do governo Trump para temas ligados ao Brasil. A visita dele ao ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão acabou barrada pelo ministro Alexandre de Moraes, após o chanceler Mauro Vieira alertar que o episódio poderia ser interpretado como interferência em assuntos internos do país. O caso reforçou a percepção, em Brasília, de que a relação com a atual administração americana entrou em uma fase de maior volatilidade, em que segurança, política doméstica e diplomacia passaram a se misturar de forma mais intensa.
Na prática, o que está em disputa agora não é apenas a forma de nomear PCC e CV, mas o tipo de resposta internacional que poderá ser adotada contra essas organizações. Para os Estados Unidos, a linguagem do terrorismo amplia instrumentos de pressão e de asfixia financeira. Para o governo brasileiro, essa equiparação distorce a natureza do problema, fragiliza a soberania do país e pode criar precedentes difíceis de controlar. O resultado é uma encruzilhada diplomática: Brasília quer aprofundar a cooperação contra o crime organizado, mas sem permitir que essa cooperação seja usada como justificativa para uma agenda externa mais agressiva sobre território e instituições brasileiras.
No curto prazo, a tendência é que o tema siga no topo das conversas entre os dois governos. A depender do rumo que Washington der ao caso, a classificação das facções brasileiras poderá deixar de ser apenas um debate jurídico e se transformar no principal teste político da relação entre Lula e Trump neste início de 2026.



