Presidente argentino reforçou reivindicação de soberania sobre o arquipélago, criticou o funcionamento das Nações Unidas e defendeu menos restrições ao desenvolvimento da inteligência artificial
Em sua terceira participação no encontro como presidente, Milei criticou a atuação da própria ONU e afirmou que a organização estaria escolhendo “olhar para o outro lado” diante da disputa de soberania entre Argentina e Reino Unido. A declaração ocorre em meio a uma nova escalada diplomática envolvendo projetos de exploração de petróleo nas proximidades do arquipélago.
Malvinas voltam ao centro do discurso argentino
A Argentina reivindica a soberania sobre as ilhas, administradas pelo Reino Unido, há décadas. O território foi palco da Guerra das Malvinas em 1982, conflito de aproximadamente dez semanas que terminou com a rendição argentina às forças britânicas. A questão permanece aberta diplomaticamente e continua sendo um dos temas mais sensíveis da política externa argentina.
A tensão aumentou nas últimas semanas por causa do avanço do projeto petrolífero offshore Sea Lion, ligado às empresas Navitas Petroleum e Rockhopper Exploration.
O governo de Milei abriu procedimentos contra mais de 60 empresas e pessoas relacionadas ao projeto e apresentou ao Congresso argentino uma proposta para endurecer sanções contra companhias consideradas envolvidas em atividades não autorizadas pela Argentina em áreas marítimas reivindicadas pelo país.
Durante a Assembleia Geral, Milei aproveitou o palco internacional para reafirmar a posição argentina e cobrar maior participação da ONU na busca por uma solução para a disputa.
Reino Unido rejeita posição argentina
O governo britânico, por sua vez, mantém uma interpretação diferente sobre o território. Autoridades do Reino Unido afirmam que as ilhas são britânicas e defendem o direito dos moradores do arquipélago de desenvolver seus recursos naturais.
O tema também apareceu na Assembleia Geral antes da fala de Milei. O primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, afirmou que o Reino Unido permanecerá firme diante de desafios aos territórios sob administração britânica e citou diretamente as ilhas durante sua intervenção.
O chanceler argentino, Pablo Quirno, respondeu reiterando a disposição de Buenos Aires para retomar negociações bilaterais com Londres. A Argentina cita resoluções da ONU que reconhecem a existência de uma disputa de soberania e defendem uma solução negociada e pacífica entre os dois países.
Milei volta a criticar funcionamento da ONU
Além da questão das Malvinas, o presidente argentino retomou críticas que já havia feito ao funcionamento das Nações Unidas.
Desde sua primeira participação na Assembleia Geral, em 2024, Milei questiona o crescimento da atuação de organizações multilaterais em temas que, em sua visão, deveriam permanecer sob responsabilidade dos Estados nacionais.
O discurso ocorre durante uma edição da Assembleia Geral marcada por debates sobre guerras, mudanças climáticas, economia internacional, segurança e transformação tecnológica. O tema oficial do encontro de 2026 é “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”.
Inteligência artificial também entra no discurso
Outro eixo apresentado por Milei foi a inteligência artificial. O governo argentino tem defendido uma abordagem favorável ao desenvolvimento da tecnologia, demonstrando preocupação com regulações que possam, na avaliação do Executivo, limitar inovação e investimentos.
A posição aparece em um momento em que governos e organismos internacionais discutem quais regras deveriam ser adotadas para administrar riscos associados à IA. Milei argumentou em favor de maior liberdade para o desenvolvimento tecnológico e alertou para o risco de países ficarem para trás nessa transformação.
O debate contrasta com a posição apresentada pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, que nesta edição da Assembleia defendeu maior cooperação internacional e mecanismos de governança para administrar os riscos relacionados à inteligência artificial.
Aproximação com Estados Unidos
A passagem de Milei por Nova York também inclui uma intensa agenda diplomática. O argentino participou de atividades ao lado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e manteve encontro com o secretário de Estado americano, Marco Rubio.
A aproximação entre Buenos Aires e Washington tem se aprofundado nos últimos anos, especialmente em temas econômicos, energéticos e de segurança. Durante a Assembleia Geral, os Estados Unidos também avançaram em iniciativas envolvendo investimentos em minerais críticos e energia na Argentina.
Após o discurso na ONU, Milei mantém compromissos com empresários e participa de encontros voltados a temas como liberdade econômica, segurança estratégica e relações internacionais.
A participação argentina na Assembleia Geral ocorre, portanto, em meio a uma combinação de reivindicação territorial, disputa por recursos naturais, aproximação com Washington e questionamentos ao atual funcionamento das instituições multilaterais, temas que devem continuar ocupando espaço na política externa do governo Milei.

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