Petróleo volta a superar US$ 100, pressiona inflação global e leva governo brasileiro a agir para conter alta do diesel

Tensões no Oriente Médio, temor de interrupções no fornecimento e decisão dos EUA de liberar compra de barris russos mantêm mercado em alerta; no Brasil, Planalto anuncia pacote para tentar evitar repasse imediato aos combustíveis

O petróleo voltou a operar acima da marca simbólica de US$ 100 por barril nesta sexta-feira (13), em um movimento que reforça o clima de apreensão nos mercados internacionais e amplia os riscos para a inflação global. Mesmo após os Estados Unidos liberarem a compra de barris russos retidos no mar, a commodity seguiu pressionada pelas incertezas provocadas pela guerra no Oriente Médio e pelo receio de que um conflito prolongado comprometa o abastecimento mundial de energia.

Desde o início da guerra, o petróleo já acumula valorização de cerca de 40%, saindo de patamares próximos a US$ 60 no começo de 2026 para níveis que não eram vistos desde meados de 2022. A escalada recente evidencia que, apesar das tentativas de aliviar a oferta no mercado, os agentes econômicos continuam precificando um cenário de forte instabilidade geopolítica e risco elevado para a cadeia global de suprimentos.

Na máxima do dia, o barril do Brent, referência internacional, chegou a subir 0,8%, sendo negociado a US$ 100,30. Já o WTI, principal referência dos Estados Unidos, operava a US$ 95,98. Mais tarde, por volta das 11h no horário de Brasília, os contratos passaram a recuar, mas ainda mantinham preços elevados: o Brent caía 0,34%, a US$ 100,12, enquanto o WTI recuava 1,30%, a US$ 94,49.

Ainda que tenha havido alguma acomodação ao longo do pregão, o movimento geral do mercado permanece de cautela. O petróleo acima de US$ 100 não representa apenas um marco psicológico. Para economias importadoras, o encarecimento da commodity afeta diretamente os custos de combustíveis, transporte, produção industrial e logística, com potencial para contaminar cadeias inteiras de preços. Em outras palavras, o barril mais caro pode significar inflação mais persistente, crescimento mais fraco e juros elevados por mais tempo.

Esse temor já começa a aparecer com mais clareza nas expectativas dos investidores. A nova disparada do petróleo reacendeu as preocupações com a inflação internacional e levou o mercado a revisar as apostas para a política monetária dos Estados Unidos. Agora, a projeção é de apenas 20 pontos-base de cortes de juros pelo Federal Reserve em 2026, abaixo dos 50 pontos-base esperados no mês passado. A mudança indica que o mercado vê menos espaço para uma redução agressiva dos juros caso os preços da energia continuem pressionando o custo de vida e dificultando o trabalho dos bancos centrais.

Para analistas, o ambiente segue marcado por grande instabilidade. A percepção é de que o mercado ainda está longe de encontrar um ponto de equilíbrio. Em meio a esse cenário, crescem as avaliações de que qualquer novo episódio militar, restrição comercial ou ameaça ao transporte marítimo pode produzir ondas adicionais de volatilidade. A tensão não se limita aos contratos futuros de petróleo: bolsas, moedas, títulos públicos e ativos de países emergentes também passam a reagir com mais sensibilidade ao noticiário geopolítico.

A avaliação predominante entre especialistas é que o atual choque no petróleo reúne ingredientes clássicos de uma crise de energia: escassez potencial, temor geopolítico, resposta política incerta e capacidade limitada de compensação rápida da oferta. Mesmo com medidas pontuais para ampliar a circulação de barris russos, o mercado entende que o problema central não está resolvido. A dúvida que prevalece é se a guerra pode provocar interrupções mais severas e duradouras em regiões estratégicas para a produção e o escoamento de petróleo.

No Brasil, os reflexos dessa alta internacional já mobilizaram o Palácio do Planalto. Diante do risco de que o encarecimento do barril se transforme em aumento expressivo no preço do diesel, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou, na quinta-feira (12), um pacote emergencial de medidas com o objetivo de amortecer o impacto sobre os consumidores e sobre a economia.

Entre as principais ações, o governo decidiu zerar as alíquotas de PIS e Cofins sobre o diesel e também criar uma subvenção para produtores e importadores do combustível. Pelas estimativas oficiais, essas medidas podem resultar em uma redução de aproximadamente R$ 0,64 por litro no preço do diesel. A aposta do governo é evitar que a alta internacional seja repassada de forma imediata e integral ao mercado doméstico.

A preocupação é considerada estratégica. O diesel tem peso central na economia brasileira por ser a base do transporte rodoviário de cargas, principal modal logístico do país. Quando seu preço sobe de forma expressiva, o impacto rapidamente se espalha para o custo de alimentos, produtos industrializados, fretes e serviços. Ou seja, conter o diesel é, para o governo, uma forma de tentar proteger a inflação ao consumidor e reduzir o risco de desgaste econômico e político em um momento de forte sensibilidade no mercado.

Para compensar a perda de arrecadação com a desoneração, o governo também anunciou a criação de um imposto de 12% sobre a exportação de petróleo. A ideia é capturar parte dos ganhos extraordinários obtidos por produtores em um contexto de preços internacionais mais altos. Trata-se de uma medida que busca equilibrar o esforço fiscal do pacote, ao mesmo tempo em que transfere parte do benefício da valorização externa da commodity para a política de contenção dos combustíveis no mercado interno.

A reação da Petrobras foi um dos pontos mais acompanhados após o anúncio. Na noite de quinta-feira, a estatal informou que seu conselho de administração aprovou a adesão da companhia ao pacote do governo. Segundo a empresa, o programa é facultativo, mas pode trazer benefícios adicionais e, por isso, foi considerado compatível com os interesses corporativos.

A Petrobras, no entanto, ressaltou que a assinatura definitiva do termo de adesão ainda depende da publicação e da análise das regras que serão estabelecidas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Entre os pontos sensíveis está justamente a definição do preço de referência que será usado para operacionalizar a subvenção. Sem esse detalhamento regulatório, a implementação efetiva das medidas