União Europeia prevê demora para retomar importação de carne bovina brasileira

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Bloco europeu considera difícil liberar novamente a entrada do produto brasileiro antes de dois anos; exigências envolvendo antimicrobianos e rastreabilidade estão entre os principais obstáculos

A União Europeia avalia que a retomada das exportações de carne bovina brasileira para o bloco pode levar cerca de dois anos, principalmente por causa das regras europeias relacionadas ao uso de antimicrobianos durante a criação dos animais.

A avaliação foi apresentada pelo chefe-adjunto da Delegação da União Europeia no Brasil, Jean-Pierre Bou, em entrevista concedida ao g1 após participação no Global Agribusiness Festival, em São Paulo. Segundo ele, apesar das negociações em andamento, ainda é considerado difícil encontrar uma solução que permita a reabertura do mercado europeu para a carne bovina brasileira em um período mais curto.

Exportadores brasileiros querem período de transição

Representantes do setor pecuário brasileiro vêm defendendo que o governo negocie com a União Europeia um período de transição, que permitiria a retomada das exportações antes do prazo considerado necessário pelas autoridades europeias.

Até o momento, entretanto, o bloco não indicou que aceitará essa alternativa.

Bou afirmou que os diferentes envolvidos na discussão buscam uma saída para o impasse, mas ressaltou que as exigências sanitárias da União Europeia dificultam uma solução imediata.

Por que a carne brasileira enfrenta restrições?

A questão está diretamente ligada às regras europeias sobre o uso de antimicrobianos na produção animal.

Esses medicamentos podem ser utilizados no tratamento de infecções, mas a União Europeia estabelece restrições rigorosas, principalmente contra o emprego dessas substâncias como promotores de crescimento.

O bloco também proíbe o uso em animais de determinados antimicrobianos reservados ao tratamento de seres humanos.

Em 3 de setembro de 2026, a União Europeia interrompeu as importações de produtos brasileiros de origem animal. A decisão havia sido anunciada meses antes, depois que o Brasil deixou de integrar a lista de países reconhecidos pelo bloco como compatíveis com suas regras referentes ao uso de antimicrobianos.

Ciclo do boi dificulta retomada rápida

Um dos principais obstáculos para a carne bovina está no próprio ciclo de produção.

Para voltar a exportar, os fornecedores precisam conseguir demonstrar que os animais atenderam às exigências europeias durante todo o seu ciclo de vida.

No caso do gado bovino, esse período pode chegar, em média, a aproximadamente dois anos.

Por esse motivo, mesmo que produtores e frigoríficos brasileiros adaptem imediatamente seus procedimentos, poderá ser necessário aguardar um novo ciclo de animais para que seja possível comprovar integralmente o cumprimento das regras exigidas pelo mercado europeu.

Frango e mel estão em situação diferente

Enquanto a carne bovina enfrenta um processo mais demorado, outros produtos brasileiros podem ter uma retomada mais rápida.

Segundo Jean-Pierre Bou, a União Europeia conseguiu realizar auditorias envolvendo frango e mel, e os resultados foram considerados satisfatórios.

A expectativa, nesse caso, é de que essas categorias tenham condições de recuperar o acesso ao mercado europeu antes da carne bovina.

Setor brasileiro criticou medida

Quando as restrições foram anunciadas, representantes do agronegócio brasileiro classificaram a decisão europeia como uma medida de caráter protecionista.

A crítica ganhou força porque a suspensão ocorreu em um período próximo à implementação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia.

Do lado europeu, entretanto, as autoridades sustentam que as exigências fazem parte das normas sanitárias aplicadas aos países interessados em fornecer produtos de origem animal ao mercado do bloco.

Acordo com Mercosul abre outras oportunidades

Apesar do impasse envolvendo a carne bovina, Bou afirmou que o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia também vem abrindo novas oportunidades para produtos brasileiros.

Entre os exemplos mencionados estão café e uvas.

Dados do Ministério da Agricultura citados na reportagem mostram que, após a assinatura do acordo em maio, o volume de café brasileiro exportado para a União Europeia cresceu 10,9% até agosto, na comparação com o mesmo período de 2025.

Desmatamento também influencia relação comercial

Outro assunto destacado pelo representante europeu foi a imagem ambiental do Brasil.

Bou defendeu que o país mantenha os esforços de redução do desmatamento e cumpra as normas ambientais já existentes.

Segundo ele, áreas anteriormente desmatadas e atualmente degradadas podem ser utilizadas para ampliar a produção agrícola, reduzindo a necessidade de abertura de novas áreas.

A preocupação também está relacionada à lei antidesmatamento da União Europeia, conhecida como EUDR, prevista para entrar em vigor em dezembro.

Pelas novas exigências, empresas que vendem determinados produtos para o mercado europeu terão que comprovar que as mercadorias não estão relacionadas a áreas desmatadas.

Rastreabilidade será desafio para pecuária

Para atender às novas exigências, produtores e empresas precisarão apresentar informações que permitam acompanhar a origem dos produtos.

No setor bovino, essa tarefa pode ser especialmente complexa.

Isso ocorre porque um mesmo animal pode passar por diferentes propriedades durante sua vida antes de chegar ao frigorífico, dificultando o acompanhamento completo da cadeia produtiva.

Já setores como o café estão, segundo Bou, mais avançados na preparação dos sistemas necessários para atender às novas normas europeias.

Bioeconomia pode ampliar exportações brasileiras

Além das commodities agrícolas tradicionais, o representante europeu apontou a bioeconomia como uma área de grande potencial para o Brasil.

Produtos amazônicos ainda pouco conhecidos no continente europeu podem conquistar espaço em segmentos como alimentação, cosméticos e medicamentos.

Frutas, pescados e ingredientes derivados da biodiversidade brasileira aparecem entre as possibilidades para diversificar a presença do país no mercado europeu.

Negociações continuam

Enquanto produtores e exportadores pressionam por uma solução mais rápida, a carne bovina brasileira continua enfrentando um cenário de incerteza no mercado europeu.

A principal dificuldade é comprovar o cumprimento das regras sobre antimicrobianos durante todo o ciclo de vida do animal, o que explica a estimativa de que uma normalização completa possa levar aproximadamente dois anos.

As discussões entre autoridades brasileiras, representantes do setor privado e a União Europeia deverão continuar na tentativa de encontrar alternativas que permitam acelerar a retomada das exportações sem descumprir as exigências sanitárias do bloco.

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