Setor aponta gargalos que vão do financiamento à infraestrutura e espera propostas mais claras de Lula e Flávio Bolsonaro para reduzir custos, aumentar a segurança jurídica e melhorar a competitividade do campo
O agronegócio brasileiro chega à reta final da eleição presidencial de 2026 com uma lista extensa de demandas para o próximo governo. Entre os principais pontos levantados por representantes do setor estão crédito rural mais acessível, ampliação do seguro agrícola, redução da dependência de fertilizantes importados, melhoria da infraestrutura e maior segurança jurídica.
As cobranças ganham força no segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), marcado para 25 de outubro. Entidades e especialistas do setor afirmam que os planos apresentados até aqui ainda deixam lacunas em temas considerados estratégicos para a produção agropecuária brasileira.
Crédito rural é uma das principais preocupações
O financiamento aparece entre os maiores gargalos.
Produtores reclamam principalmente dos juros elevados, da burocracia e da dificuldade de acesso a linhas de crédito, especialmente para pequenos e médios agricultores.
Segundo entidades citadas em levantamentos recentes, existe um déficit estimado em cerca de R$ 500 bilhões no financiamento do agronegócio, considerando as necessidades de expansão e modernização do setor.
A demanda é por mecanismos que combinem recursos públicos e privados e reduzam a dependência exclusiva do Plano Safra.
Setor quer seguro rural mais amplo
O seguro rural é outro tema considerado urgente.
Eventos climáticos extremos, como secas prolongadas, enchentes, ondas de calor e geadas, vêm ampliando os prejuízos nas lavouras e tornando a atividade cada vez mais exposta.
Apesar disso, apenas uma pequena parcela da área agrícola brasileira possui cobertura.
Dados citados por especialistas mostram que, em 2025, aproximadamente 3,3% da área cultivada no país estava protegida por seguro rural.
Para produtores e entidades, o próximo governo precisará ampliar de forma significativa os recursos destinados à subvenção dos seguros.
Fertilizantes continuam sendo ponto vulnerável
Outra preocupação é a forte dependência brasileira de fertilizantes estrangeiros.
O país está entre os maiores produtores agrícolas do mundo, mas importa grande parte dos insumos utilizados nas lavouras.
Essa dependência deixa os custos de produção vulneráveis a guerras, variações cambiais, sanções comerciais e problemas logísticos internacionais.
Os dois candidatos mencionam a necessidade de ampliar a produção nacional, mas apresentam caminhos diferentes.
Lula tem defendido maior participação da Petrobras, expansão de bioinsumos e retomada da produção doméstica.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, menciona maior exploração das reservas minerais brasileiras.
Especialistas alertam, no entanto, que limitações técnicas e geológicas impedem uma substituição rápida das importações.
Infraestrutura continua limitando competitividade
Estradas, ferrovias, hidrovias e portos continuam entre as demandas históricas do agronegócio.
Em muitas regiões produtoras, o custo para transportar soja, milho, carne e outros produtos até os portos representa uma parcela significativa do preço final.
Representantes do setor defendem a continuidade de concessões privadas, investimentos ferroviários e expansão das rotas de escoamento pelo Norte do país.
A melhoria da logística é vista como uma forma de reduzir o chamado “Custo Brasil” e aumentar a competitividade frente a concorrentes como Estados Unidos e Argentina.
Segurança jurídica no campo também preocupa
O setor também cobra regras mais claras para questões fundiárias, ambientais e tributárias.
Produtores pedem segurança jurídica sobre propriedade da terra, licenciamento ambiental, regularização fundiária e aplicação das regras do Código Florestal.
A Frente Parlamentar da Agropecuária e diferentes entidades do setor têm defendido que mudanças relevantes nessas áreas sejam feitas com previsibilidade, evitando alterações frequentes que dificultem investimentos de longo prazo.
Questão ambiental ganha peso nas exportações
As exigências ambientais deixaram de ser apenas uma questão interna e passaram a afetar diretamente o comércio exterior.
Grandes compradores internacionais, especialmente a União Europeia, estão implementando regras que exigem rastreabilidade e comprovação de que produtos agrícolas não estão associados ao desmatamento.
Por isso, o próximo governo também terá de conciliar aumento da produção com combate ao desmatamento ilegal e aprimoramento dos sistemas de rastreabilidade.
A ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira afirmou recentemente que o fim do desmatamento ilegal deveria estar entre as prioridades do próximo governo, inclusive para preservar a competitividade internacional do Brasil.
Pequenos produtores cobram assistência e acesso ao mercado
Nem todas as demandas do agro envolvem grandes propriedades.
Agricultores familiares também cobram assistência técnica, crédito, seguro e melhores condições de comercialização.
A regularização fundiária é especialmente importante para pequenos produtores, já que a documentação da propriedade pode ser necessária para conseguir financiamento em instituições financeiras.
Programas de armazenagem e cooperativismo também aparecem entre as demandas.
Setor quer planejamento de longo prazo
Uma reclamação recorrente é a falta de políticas permanentes.
Representantes do setor argumentam que decisões relacionadas a crédito, seguro, infraestrutura e comércio exterior não podem depender apenas de medidas emergenciais tomadas a cada safra.
A cobrança é por uma política de Estado para o agronegócio, com planejamento de longo prazo e maior previsibilidade para investimentos.
Planos dos candidatos ainda são considerados pouco detalhados
Embora Lula e Flávio Bolsonaro apresentem propostas para o campo, especialistas afirmam que há pontos importantes sem detalhamento suficiente.
No crédito rural, por exemplo, Lula fala em ampliar os recursos, enquanto Flávio enfatiza maior participação do setor privado e regularização fundiária.
No seguro rural, ambos defendem expansão, mas ainda há dúvidas sobre quanto dinheiro seria destinado ao programa e de onde viriam os recursos.
O mesmo ocorre com fertilizantes e infraestrutura, áreas nas quais as propostas ainda dependem de maior detalhamento técnico e orçamentário.
Agro terá peso relevante no próximo governo
O agronegócio responde por parcela expressiva das exportações brasileiras e influencia diretamente a balança comercial, o emprego e a atividade econômica de centenas de municípios.
Por isso, as decisões do próximo presidente sobre juros, crédito, infraestrutura, meio ambiente, comércio exterior e tributação terão impacto direto sobre o setor.
A cobrança das entidades é que, passada a eleição, as promessas sejam transformadas em políticas concretas.
Para o agronegócio, o principal desafio não é apenas produzir mais, mas reduzir riscos, custos e incertezas para manter o Brasil competitivo no mercado internacional.

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